S13-10

S13-10 ONLINE

Das redes digitais às ruas da cidade: a experiência de um movimento social da sociedade civil no Nordeste do Brasil

Todo processo de mudança social foi e continua sendo historicamente alavancado pelos movimentos sociais, como aponta Castells (2013). Na contemporaneidade, a organização desses movimentos por meio das redes sociais aponta para novos questionamentos e desafios do fazer político pela ampliação dos espaços democráticos (Harvey, 2014). Movidos pela proposta de mudança, de questionamento ou de interrupção de decisões administrativas no setor público, esses movimentos encontraram eco com o advento das redes sociais digitais e das tantas ferramentas de fluxo de informação binária à palma da mão. Chamados por vezes ciberativistas esses cidadãos e cidadãs se viram diante da praticidade de domínio e interação via plataformas informáticas para dar vazão a ações efetivas dentro e fora do plano “virtual”. A onda de protestos impulsionados pelo cenário de integração digital marcou os noticiários com expressões como Primavera Árabe, no Oriente Médio e Norte da África (2010); Ocupe Wall Street (2011), em Nova York; e as Jornadas de Junho, no Brasil (2013). Este trabalho tem como objetivo descrever a trajetória de fluxo de informação e agenda de ações do Movimento João Pessoa que Queremos (JPqQ), nascido da indignação espontânea de jovens da cidade de João Pessoa, Nordeste do Brasil, como resistência às políticas urbanas na cidade. A exemplo dos grandes movimentos ao redor do mundo, mesmo em menor escala, o JPqQ surgiu da interação entre pessoas de diversos segmentos, nas redes sociais, e dali partiu para atividades nas ruas, sessões deliberativas oficiais junto a entes do poder público, conquistando um lugar de representação em negociações administrativas decisivas sobre a intervenção do poder público na geografia do espaço urbano. Os resultados apontam para um fluxo intenso de atividades ao longo de cinco anos de Movimento, com conquistas visíveis à cidade, em uma consolidação do que Castells chama “espaço da autonomia”. Apesar disso, nota-se que há uma possível fragilização de um movimento com essas características a partir do esforço de manutenção permanente de ações e mobilizações ao longo dos anos, especialmente quando se trata de formas voluntárias, não remuneradas e horizontais de organização. Pretende-se com esse relato apontar caminhos possíveis da organização da sociedade civil e, para além, lançar luz sobre fragilidades desse processo, em uma análise que pode contribuir para novos agrupamentos sociais contemporâneos que lutam cotidianamente pela mudança social.

 

Palavras-chave: Movimento social, ativismo digital, espaço democrático, direito à cidade, João Pessoa que queremos, Nordeste brasileiro.

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Firmantes

Nombre Adscripcion Procedencia
Henrique França Universidade de Coimbra Portugal
Christinne Eloy Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba - IFPB Brasil
Fernanda Rocha Universidade Federal da Paraíba - UFPB Brasil

Comentarios

  1. Carla Aragao2020-04-03 03:43:04

    Excelentes comentários. Apenas revela a maturidade da pesquisa. Esperando o artigo completo. Grande abraço

  2. Carla Aragao2020-04-02 15:00:42

    Bom dia, Henrique, Fernanda e Christinne. Muito obrigada por compartilhar o trabalho e as reflexões de vocês. Parabéns! Como vocês pontuaram na resposta à professora Salud, carecemos de registros e análises desses fenômenos. Inclusive, sugiro que vocês ampliem um pouco mais a perspectiva do trabalho. Não li o artigo, mas pelo vídeo tive a compreensão que vocês ultrapassam o âmbito do registro, descrito no objetivo. Bem, o trabalho suscita muito diálogo e curiosidades. Encaminho algumas perguntas para iniciarmos as trocas: - Vocês podem descrever a metodologia que usaram para realizarem o registro e análise? ("(net)nografia"? estudo de caso? etc) - Como alguém que também já esteve envolvida em um movimento que guarda algumas semelhanças com o JPqQ, me pergunto se não é uma característica dessas mobilizações, com agendas definidas e pontuais, ter um processo de esvaziamento quando a agenda proposta inicialmente se esgota... Seria isso um traço de fragilidade ou uma característica de alguns processos? - Vocês apresentam como "legado" do movimento os rumos que as pessoas/coletivos tomaram após a conquista do pleito. Vocês pretendem explorar mais esse "legado"? Essas pessoas não já estavam conectadas a outros grupos, coletivos, movimento e agendas? Não terá acontecido um processo de fortalecimento? Minha desconfiança é de que esses processo que parecem "espontâneos" eles se fortalecem porque as pessoas e grupos que se envolvem já trazem, salvo exceções, uma bagagem de atuação... bem, essa é apenas uma desconfiança. Bem, reitero meus parabéns ao excelente e oportuno trabalho e os convido a conhecer os trabalhos que apresentamos ao Congresso não apenas aqui no S13, mas tb no S12 e no S26. Sigamos em contato. Carla

    • Henrique França2020-04-03 03:02:51

      Olá, Carla. Muitíssimo obrigado pelas palavras e pela contribuição. Sua intervenção tem nos ampliado o olhar para outros aspectos sobre o trabalho realizado. Que bom! Sim, nosso trabalho tem como objetivo descrever o fluxo de informação e as ações do Movimento JPqQ. Respondendo a seus questionamentos: utilizamos como metodologia principal o Estudo de Caso. Poderíamos dizer que, em alguma medida, tivemos um caminho híbrido, reunindo Estudo de Caso e Pesquisa Participante, mas o fundamento está no primeiro. A proposta de outro enfoque usando a (net)nografia é bem-vinda e pensada, sim, mas não integra este trabalho. A partir de sua provocação pensamos em, quem sabe, fazer uma ampliação do escopo de pesquisa. Sobre o esvaziamento você tem toda razão. Na verdade, não enxergamos como fragilidade “ou” característica desses processo, mas uma junção desses dois elementos. O próprio Castells nos aponta, desde A Sociedade em Rede, que as mudanças sociais trazidas pelos processos de transformação tecnológica e econômica implicaria em mudanças sociais como a tendência à fragmentação dos movimentos sociais, “com um objetivo único e efêmeros”. Essa fragilidade, portanto, é uma característica de movimentos que surgem a partir de questões específicas. Quando elas se resolvem ou eles se reorganizam, encontram novo foco, ou se dissolvem. Sobre o legado, vamos um pouco além: creio que não foi citado como “legado” não apenas o destaque que o Movimento conquistou em outras pautas e debates sobre direito à cidade, mas principalmente abrir as portas de um relacionamento gestão municipal e movimentos da sociedade civil até então não perceptível. O poder público não tinha, até então, percepção da existência de um movimento que representasse a pauta do direito à cidade e temas relacionados a esse direito. Nesse sentido o JPqQ deu o primeiro passo para se discutir, mais amplamente – dialogando nas duas “extremidades” (poder público e comunidade) – às pautas do direito à cidade. Sobre os integrantes, também há uma mescla aqui. Alguns vieram de movimentos consolidados e se somaram à iniciativa. Outros nunca haviam integrado algo do tipo, mesmo sendo “ciberativistas” solitários. E outros, em menor número, iniciaram sua trajetória de ativismo ali. Porém, de todo esse grupo heterogêneo, praticamente todos seguiram integrante outros movimentos em pautas diversas – da mobilidade urbana à transparência pública. Nesse aspecto o JPqQ foi um “laboratório” de iniciação para alguns e de aprimoramento para outros no chamado “ativismo”, em João Pessoa. Espero que tenhamos respondido satisfatoriamente, Carla. Nos colocamos à disposição para continuarmos debatendo, crescendo juntos nessa interação. Mais uma vez, muitíssimo obrigado por sua valiosa intervenção.

  3. Salud Flores Borjabad2020-03-31 15:28:04

    Muchas gracias por la respuesta. La verdad es que es una pena que no haya seguido como tal, ya que es una nueva realidad a la que estamos asistiendo donde los movimientos virtuales son indispensables. Muchas gracias otra vez y espero que disfrutes del Congreso y del simposio13 en particular.

  4. Salud Flores Borjabad2020-03-31 12:33:49

    En primer lugar, quisiera daros las gracias por vuestra participación. Ha sido muy interesante y muy digna de tener en cuenta en relación a los últimos movimientos en la red. No obstante, me surge una duda ¿el movimiento se ha disgregado por completo o existe algún reducto en la red? Por ejemplo, habéis hablado de la Primavera Árabe en 2010/2011, pero este movimiento sigue vivo en la red. De hecho, hay activistas que lo desarrollan a través de diferentes elementos. Es más, puede decirse que ha habido repuntes de manifestaciones en muchos países árabes, dando lugar a la Primavera Árabe 2.0. Por otro lado, quisirera preguntaros si existió algún precursor en Brasil o si fue directamente una influencia de movimientos extranjeros. Muchas gracias otra vez y espero que estéis bien ante esta situación que estamos viviendo. 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

    • Henrique França2020-03-31 13:18:00

      Olá, Salud. Agradecemos o carinho com que recebes o trabalho e o questionamento. Infelizmente, hoje, o Movimento João Pessoa que Queremos deixou poucos rastros na rede, pois mesmo sua página no Facebook foi desativada. Após a conquista do estaço na Avenida Beira Rio o grupo permaneceu em outras atuações, com alguns bons resultados, mas perdeu força diante de tantos assuntos a serem tratados. Percebeu-se que seria mais simples atuar em um foco único, um tema único, como o inicialmente o da mobilidade urbana. Porém, parte da equipe já estava integrada a outros movimentos - das bicicletas, das praças, da transparência pública, etc. E, finalmente, há um capítulo desagradável, depois desses cinco anos de atuação, em que o nome do Movimento passou a ser usado em benefício particular. Quando isso foi percebido, mesmo sem atuar oficialmente, os integrantes se comunicaram e decidiram encerrar oficialmente as atividades. Mais triste ainda é não haver uma memória registrada, oficial, do Movimento na rede. O que há, de fato, são os registros nos vários meios de comunicação de massa e nos relatos de perfis de participantes no Facebook, por exemplo. É uma situação realmente triste para uma história tão bonita.

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